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PENEIRA NA PORTUGUESA DIA DE DIEGO,FILHO DE PAIS XIQUE-XIQUENSES.



No guichê do portão 7 do estádio do Canindé,da Portuguesa de Deportos,na avenida marginal do rio Tietê,zona norte de São Paulo,dezenas de pessoas,entre crianças, adolescentes,pais,mães,tios e avós formam fila para fazer a inscrição para a peneira do clube,a prova de seleção para conseguir um lugar nos times das categorias de base.Os candidatos,nascidos entre 1984 e 1989,são corintianos,são paulinos, palmeirenses,flamenguistas,quase nunca lusos (como se identificam os torcedores do clube)."A falta de títulos atrapalha você ter uma grande torcida",explica,em tom realista,o presidente do clube,Joaquim Heleno.A Portuguesa conseguiu seu último título importante em 1973.Ele diz que a média de público no Canindé,torcendo pelo time,não passa de 4 mil pessoas,a maioria descendentes de portugueses.Mesmo assim,a Portuguesa é uma ótima possibilidade de entrada no futebol para a molecada,pois seus times de base têm tradição e já revelaram jogadores como Enéas,Edu Marangon e Dener, todos com passagens pela Seleção Brasileira.

A peneira é aberta,todos podem fazer o teste.Nesta quarta-feira bem cedo dona Guiomar pegou o trem em Mauá,na Grande São Paulo,para inscrever o neto e o filho.O filho anda um pouco desiludido e trabalha como ajudante de pedreiro,quando encontra serviço.Dona Guiomar aposta as fichas no neto."O moleque é pequeno,mas se pegar um grandão para driblar, ele vai embora.O menino joga muito",diz."Oproblema lá na Vila Vitória II é que não vai ninguém ver os meninos jogar,aí agente tem que trazer".Na família,todos estão desempregados.O sustento vem de duas pequenas casas que dona Guiomar aluga,por R$ 250 e R$ 350 mensais.

Na fila também estão Jorge e Rodrigo.São amigos, companheiros de time de final de semana,o União da Vila,no bairro paulistano de Guaianazes,no extremo leste da cidade.Jorge já fez dois testes no Corinthians e desistiu."Parece que tem muita política lá,é para quem tem dinheiro,joga na escolinha deles.A mensalidade é R$ 45, fora o uniforme,que custa R$ 50",diz.Jorge vai fazer teste de zagueiro central, posição menos concorrida do que a de volante,que prefere.Do outro lado do guichê, o avaliador Augusto Nobre aconselha um rapaz a também mudar de posição para o teste."Todos querem jogar no ataque",diz com sotaque português.Augusto foi jogador do time juvenil do Benfica de Lisboa até vir com a família para o Brasil aos 15 anos,temeroso de ser chamado para as guerras na África no início dos anos 70,quando Portugal tentava retardar os movimentos de independência de suas colônias.Hoje é um dos responsáveis pela seleção de jogadores das categorias de base da Lusa (como também é conhecida a Portuguesa).Rígido, mas cordato,Augusto orienta a todos para que reconheçam a firma da assinatura do responsável na ficha de inscrição para isentar o clube de qualquer responsabilidade por eventuais acidentes nos testes."O duro é que nessa fila aparecem muitos que nem sabem o que é reconhecer firma e dizem:'olha,não vai dar não,meu pai não tem firma,está desempregado'".

EXPECTATIVA DOS PAIS.A peneira é realizada no Centro de Treinamento,no Parque Ecológico Tietê, que fica nas proximidades do Aeroporto Internacional de Guarulhos.Por precaução,os acompanhantes dos garotos são impedidos de entrar.Antes do início do teste desta quarta-feira,os avaliadores fazem uma preleção:"Isso aqui é só mais um teste na vida de vocês.Se vocês não forem escolhidos,não vai ser o fim do mundo.Às vezes a gente erra,ninguém é dono da verdade.Às vezes justo hoje vocês não estão em seu melhor dia".

Augusto Nobre,porte de atleta aposentado,de calção e apito na mão,está lá,de olho no jogo dos meninos "oito oito" e "oito nove",como dizem em relação aos nascidos em 1988e 1989.Grita orientações e faz anotações.Aos poucos,sobre o muro que cerca o campo,aparecem as cabeças dos pais mais ansiosos."Os pais são o maior problema, porque pressionam pensando que o garoto vai garantir a aposentadoria deles.Não há menino que aguente",diria mais tarde um avaliador de outro clube.O ex-goleiro Serginho observa a partida dos garotos "oito sete" durante 40 minutos."Agora,no final do jogo,os meninos já estão mortos.Olha só,ninguém corre mais.A gente deixa jogar porque senão falam que não foram avaliados,mas o que tinha que ser escolhido já foi",diz.Ele sabe bem o que os garotos estão sentido.Relembra a sensação que teve quando o escolheram em uma peneira:"Fiquei branco,com a boca seca".

É o terceiro e último dia de testes de Diego Ribeiro de Souza,um meia-esquerda de 13anos.Ele já foi testado na própria Portuguesa,no Juventus (clube da Mooca,bairro da Zona Leste,próximo ao centro de São Paulo)e no Corinthians,seu time do coração.No final do treino,fica sabendo que é um dos três escolhidos,entre mais de quarenta, para jogar no time infantil da Lusa.Os preteridos saem desconsolados.Um deles,um ruivinho,não se conforma."Vim lá de Uberlândia,faltei à aula,tenho que ficar!". Diego,feliz da vida,faz embaixadas para o fotógrafo."Quero ser jogador porque isso é uma arte".Diego mora em Ferraz de Vasconcelos,Município que fica a cerca de uma hora de trem do centro de São Paulo.Na casa sem acabamento,localizada no Jardim TV,ele vive com os pais,Antônio e Maria (baianos de Xique-Xique),e a irmã,Ana Carolina.

A iniciativa de introduzir o menino no mundo do futebol foi do pai, que trabalha como segurança da TV Record,função que o coloca em contato com jogadores e dirigentes de clubes.Antônio conversava muito com Marcelinho Carioca,o ex-jogador do Corinthians."Um dia falei prá ele que eu tinha um filho que treinava em um clube aqui mesmo, aí ele disse:'coloca ele em uma escolinha'.Isso me despertou".Diego,que hoje cursa a 8ª série,freqüentou a escolinha de futebol da prefeitura de Ferraz de Vasconcelos.Os professores confirmaram que o garoto jogava bem. Diego define seu jogo, desinibido:"comando o meio de campo, passo a bola prá frente, dou condição ao atacante.".Antônio sabe que a profissão de jogador de futebol pode ser um instrumento de ascenção social,mas fala com cautela sobre isso."No momento acho que ele deve ter consciência de que a prática do esporte já é uma coisa muito boa na nossa vida.Mas eu falo que ele pode se tornar um jogador profissional amanhã.Por que não? Tem a história de vários jogadores que surgiram realmente de baixo. Tem o Pelé, tem vários",diz.

Tânia Caliari é jornalista.
*Matéria publicada na revista Reportagem nº 34,em julho de 2002. Para conhecer a publicação,acesse http://www.oficinainforma.com.br/.
Obs:Diego hoje tem 21 anos e se profissionalizou no Clube.

2 comentários:

  1. olá meu nome é jucirlano aureliano da silva
    e eu quero joga na portuguesa

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  2. Oi visite o site da portuguesa www.portuguesa.com.br e fique por dentro dos teste e peneiras no Clube. Abraço de um jogador do Júnior da Portuguesa .

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