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IGREJA DO MIRADOURO PODERÁ SER PATRIMÔNIO CULTURAL DA BAHIA .

Em visita ao município de Xiquexique, 15/4, a equipe do Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia (IPAC) esteve na igreja do Miradouro a fim de estudar a viabilidade de tombamento e restauração da capela. A equipe, composta de quatro integrantes, dentre eles o diretor geral, Frederico Mendonça de 58 anos, fotografou e colheu dados essenciais ao processo de tombamento da igreja.

Em entrevista exclusiva ao Página Revista, Frederico Mendonça disse que a igreja do Miradouro apresenta todos os requisitos básicos para integrar ao patrimônio cultural do Estado. “A igreja tem todos os méritos históricos, artísticos e arquitetônicos pra ser um patrimônio cultural do estado da Bahia; provisoriamente, podemos assinar um convênio entre o Ipac e a Prefeitura pra realizar ações emergenciais a fim de evitar que a igreja se degrade mais ainda, antes de começarmos o processo de restauro”, disse o diretor do Ipac. Veja a entrevista completa:

ENTREVISTA >>

Pagina Revista - Frederico, o Ipac está visitando alguns municípios e Xiquexique foi um deles. Resuma o objetivo da visita.

Frederico Mendonça – Nós estamos atendendo algumas demandas dos próprios municípios no sentido de avaliar o patrimônio cultural desses municípios, que em alguns casos são bens que merecem um reconhecimento estadual como patrimônio cultural da Bahia. Em outros casos a gente está ajudando os prefeitos, vereadores a criarem uma legislação própria de proteção ao patrimônio cultural; então, a criação da legislação também é acompanhada da criação de um conselho que tem a representação de várias pessoas do município, porque é o município que vai dizer o que é importante pra sua referência cultural, pra sua memória, das memórias dos lugares. Esse é o objetivo da viagem. Nós passamos por Central, Xiquexique, Barra, Gentio do Ouro, e vamos ter amanhã, sexta-feira de manhã uma reunião com cinco prefeitos da Chapada Diamantina, Morro do chapéu, Lençóis, Vagner, Iraquara e Palmeiras; e vamos ainda assinar um protocolo de intenções porque pela primeira vez o Estado, a pedido do Ipac vai entrar num trabalho sobre arqueologia. Essa região aqui, o território de Irecê onde está Xiquexique, é um território riquíssimo em acervo arqueológico em grutas e pouco desenvolvido, então, o Ipac está trabalhando com a Universidade Federal da Bahia com o apoio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e, naturalmente, dessas cinco prefeituras pra construir o primeiro circuito arqueológico da Chapada Diamantina envolvendo esses cinco municípios, já vimos que na região de Central também já tem um trabalho iniciado, um trabalho com o pessoal da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Então, já conversamos com a equipe da prefeitura e estamos buscando dar o apoio no primeiro momento através do edital de valorização de patrimônio que deve sair entre o final de abril e começo de maio.

Pagina Revista – Além de visitar o centro da cidade a equipe também visitou a Igreja do Miradouro. Após essa visita, qual é a conclusão à que você chegou, quais são os pontos negativos e positivos observados para um possível tombamento da igreja do Miradouro?

Frederico Mendonça – Nós ficamos encantados com a igreja, e preocupados com o estado de conservação dela, já tive o primeiro entendimento com o prefeito e com o secretário de Educação e Cultura no sentido de fazer um tombamento Estadual, seguido de um convênio de cooperação técnica entre o Ipac e a prefeitura, de modo que a gente possa imediatamente concertar o telhado e, particularmente, a parede do fundo que está descolando. Então, uma ação emergencial seguida naturalmente de outras ações de restauro do forro; é um forro belíssimo. A igreja é belíssima e tem uma história muito importante, aí fomos ver junto à prefeitura a partir desse convênio de que modo desenvolvemos os trabalhos conjuntamente, mas, nesse primeiro momento seria uma cooperação do Ipac com seu pessoal mais qualificado pra concertarmos o telhado e a parte de parede do fundo. Além de lá do Miradouro, nós andamos pelo centro da cidade com a equipe da secretaria de Educação e Cultura e vimos que Xiquexique ainda guarda alguns elementos de arquitetura que são importantes pelo menos pra nós, arquitetos e pra própria memória da cidade. Você tem ainda alguns casarões nessa praça onde está a prefeitura, por exemplo; alguns imóveis com fachadas que são muito bonitas com estilo de arquitetura que são depois do colonial e antes do moderno - é uma fase de transição que a gente chama de ‘ardegô’ e ‘eclético’ -, então nós temos alguns imóveis em Salvador que foram tombados recentemente neste estilo de arquitetura.

E achamos também no antigo porto do cais, ainda alguns exemplares de armazéns, o próprio mercado que mereceriam uma atenção especial. E a gente dispõe a ajudar o Município a criar uma legislação própria, se o Município tiver interesse. Mas ficamos também um pouco surpresos, sabemos que Xiquexique sempre teve uma relação muito forte com o rio – fotografei uma quantidade enorme de barcos levando muita gente, gado etc. Um transporte intenso. Mas, curiosamente você não vê o rio da cidade. Tudo bem, a gente sabe que teve uma história aí de inundações, teve uma necessidade. Mas será que ainda tem esse risco tão forte? Ou não seria mais interessante pra cidade recuperar sua relação com o rio, e abrir, pelo menos em alguns trechos, a vista para ele? Fazer uma ‘balaustrada’ mais baixa, de modo que você possa namorar à beira do rio! Vislumbrá-lo. Eu estava ali em cima daquela passarela e vi dois grupos subir pra fazer fotos do rio. E quando chegamos à cidade, precisamos subir - porque tem um muro -, pra ver o rio. Pensamos que, talvez, seja o momento em se pensar em reabrir pelo menos alguns trechos pra valorizar a relação da cidade com o rio, porque isso é um patrimônio histórico. A história da cidade tem a ver com a relação da cidade com o rio! A quantidade de barcos não deixa negar isso, é inegável essa relação. Será se não têm trechos que poderíamos abrir, será que o perigo de inundação é tão sério assim, que não se possa recuperar essa relação entre o rio e acidade?

Pagina Revista - Voltando ao tombamento da igreja do Miradouro, quais seriam as possibilidades da igreja vir a fazer parte do patrimônio histórico do Estado?

Frederico Mendonça - Todas, todas. Acho que a igreja tem todos os méritos históricos, artísticos e arquitetônicos pra ser um patrimônio cultural do estado da Bahia! O que é preciso agora é saber a quem vamos notificar. Isso o prefeito Reinaldo Braga Filho irá ver; se vamos notificar a ele, como gestor municipal, ou ao bispo dom Luiz Flávio Cappio. Resta descobrir quem é o proprietário da igreja, digamos assim. Só vou aguardar uma sinalização do Município pra fazer o tombamento, o prefeito também manifestou interesse; ele vai identificar quem é o dono, a quem o Ipac irá notificar. Feito isso, a igreja já poderá ser considerada patrimônio cultural da Bahia. Provisoriamente, podemos assinar um convênio entre o Ipac e a Prefeitura pra realizar ações emergenciais a fim de evitar que a igreja se degrade mais ainda, antes de começarmos o processo de restauro.

Pagina Revista - Ou seja, esse processo de restauração só poderá acontecer após o tombamento legal?

Frederico Mendonça – Isso. Porque a ação do Ipac será sobre os bens tombados, no primeiro momento. Claro que você pode ter algum bem que tenha uma relevância, que seja importante e ainda não esteja tombado, e agente pode emergencialmente entrar. Mas temos muitas coisas na Bahia pra cuidar e que estão sob a tutela do Ipac. O tombamento não é uma desapropriação, é uma tutela, é uma forma de você considerar que aquele bem, embora seja um bem particular ele é muito importante pra sociedade. Aí, os poderes públicos - pode ser o município também – podem criar uma legislação de tombamento. Dessa forma os poderes públicos passam a tutelar aquele bem que passa a ser prioridade nas linhas de financiamento, e será uma referência pra sociedade baiana
Pagina Revista – Suas considerações finais.

Frederico Mendonça – Foi muito bom estarmos aqui, eu não conhecia Xiquexique, e espero que consigamos estabelecer um contato maior com a cidade, com o Município. Sabemos que aqui tem muitas riquezas, não só materiais, não só igreja, não só fachadas bonitas; tem muitas histórias, tem muitas manifestações culturais. Saímos daqui entendendo que o patrimônio cultural está muito ligado à relação dos bens culturais com o meio ambiente. Aqui em Xiquexique a relação com o rio é básica, com a própria natureza, com o buriti (doce de buriti, que você só tem nessa região), cachaças especificas da região – inclusive estou levando algumas -, uma culinária específica da região. Nesse sentido, o patrimônio além de estar ligado ao meio ambiente, também está ligado ao turismo. E aqui tem um grande potencial turístico, mas pra desenvolvermos esse potencial precisamos cuidar desse patrimônio. Tanto de alguns imóveis na cidade, imóveis que são referências históricas, da história das comunidades do município. E também resgatar essa relação com o rio, que é muito bonita.

# O diretor Frederico Mendonça estava acompanhado de Dau Queiroz - educação patrimonial; Eduarlina Almeida de Amorim - arquiteta; e Graça Lobo - museóloga. A equipe do instituto recebeu apoio da artista plástica Aricélia, Déu Meira e Marquileide Oliveira - agente cultural do Município.
 
FONTE : PAGINAREVISTA DE ERASMO DETERRA.

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